Sou um tatuzinho-de jardim...
( Tatu-bolinha ou tatuzinhos -de- jardim ou, ainda, bichos-de - conta )
nelson antonio, um tatuzinho- bola
Quando eu era pequenino,tinha lá meus oito anos, costumava fugir da agitação da casa, onde viviam meus 8 irmãos, suas namoradas, seus milhões de amigos , meus pais e as duas empregadas, e ia me refugiar nos jardins que a circundavam, principalmente debaixo de uma grande escada-caracol. que nos levava para um andar superior onde se situava nosso recanto de estudos e de lazer. Debaixo desta escada, havia muita terra úmida e fofa, berçário de mil folhinhas multicoloridas coloridas, as marias-sem-vergonha , um montoeiro de detritos vegetais pra todo canto e debaixo das pedras, à sombra de uma espirradeira que nos dava constantemente flores cor rosa-choque, e neste cenário eu via correr pra lá e pra cá um verdadeiro exército de pequenos tatuzinhos-de jardim, com várias matizes de cores entre o rosa atéo cinza e o negro profundo, que eram meu deleite.
Com minhas mãozinhas de menininho , em concha, eu as enchia com estes bichinhos encantadores que subiam com suas dezenas de pezinhos rápidos, como pequenas centopéias inofensivas, isópodes que são, pelos meus antebraços e braços e se escondiam em minha blusa escolar, ávidos por uma raiz macia e deliciosa que era a sua alimentação favorita.Faziam de meu pequeno tórax um verdadeiro tobogã , num sobe e desce sem fim...que eu adorava como se fosse uma mágica .Feliz como quem guarda pirilampos na caixa de fósforos e se diverte com suas luzinhas verde-amareladas.
Às vezes, eu tocava com meus dedinhos estes pequenos bichinhos e eles, como num passe de mágica, se enrolavam totalmente e tornavam-se uma bolinha perfeita, como se a defenderem de meus toques falsamente intimadores. Então , o meu prazer era vê-los lépidos e serelepes e, num repente, virarem bolinhas aos montes, acuados e imóveis até que, passado o iminente perigo, espichavam-se de novo e , em segundos, corriam de novo pela terra úmida a procurar abrigo por sob a terra. Eu ficava ali horas e horas, brincando com meus amiguinhos numa doce brincadeira de ora vê-los correr e ora de vê-los enroladinhos a um toque qualquer meu .
Hoje sou moço velho e aprendi com meus tatuzinhos-de-jardim , estes pequenos crustáceos, parentes das lagostas,membros do gênero
Armadillidium , a ter igual procedimento na minha vida: sigo célere a minha vidinha comum e quando sou tocado por algo que julgo ameaçador, ou que deduzo que me fará um mal medonho, em defesa própria eu me enrosco todo e me fecho como um tatuzinho- de- jardim, por horas, dias e até semanas. Passado o perigo, a ameaça, o temporal emocional que desabou, ou não, eu me desenrolo devagarinho e vou tocar a minha vida normalmente.
Achava que isto só acontecia comigo mas hoje descubro que outras pessoas minhas queridas usam às vezes a mesma tática de se enrolarem por uns tempos, virando tatuzinhos-de - jardim fechados, intransponíveis, quando o mundo agressivo e hostil lá fora as torna vulneráveis, carentes , hipersensíveis, desprotegidas.
Como entendo bem de tatuzinho-de jardim, pois eu mesmo sou ou me comporto como um deles, os compreendo e procuro entender estes momentos de fechamento e isolamento emocional, com respeito e identificando-me neles. Acho que o menino que sempre existe em mim me ensina muito da vida. E meus simples tatuzinhos-de-jardim , tão pequeninos e insignificantes, espalhados pelos jardins da vida, continuam a serem meus professores na difícil arte de entender porque as pessoas fogem de mim, não aceitam meus préstimos e pedem-me um tempo para administrarem seus momentos carenciais com elas mesmas.E eu tenho igual procedimento de fechamento interior.
Pacientemente, espero a abertura delas e , então, como num passe de mágica , um dia elas voltam a entender que não sou tão horrorível como elas pensavam eu ser. Desenrolam-se E vamos juntos então, sem receios, lado a lado, na doce ventura de brincar de viver e de vivenciarmos um ao outro, com Amor , cuidados e carinho. Fazendo de cada dia uma saudade bonita a ser lembrada quando não mais formos.Como a saudade que tenho dos meus tatuzinhos-de-jardim que brincavam comigo e eram todo o meu encanto de menino que fui!E ainda persisto em ser...