quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Natal de um menino envelhecido ...


Hoje,escrevinhador  nostálgico, estou com saudades dos antigos natais, de esperar pela meia noite pra Missa do  Galo... dormindo em pé  ou pelas poltronas da sala de estar da casa dos meus pais ( mudaram-se pra Morada Eterna )  ao som de músicas natalinas que escapavam da velha vitrola que arranhava nosso vinil como um gato de unhas afiadas.

A gente criança lavadinha, de topete engomado com Glostora ,  de calça azul-marinho  curta, blusa branquinha de algodão aromatizada com Rinso , sapatos Vulcabrás pretos, exaustivamente engraxados,   e meias Lupo branquinhas como a nossa alma... quanta saudade daquele menino , sempre extasiado pelo brilho cintilante das luzinhas multicoloridas  da árvore de Natal  e pelos pacotes brilhosos dispostos debaixo  dela:  qual será o meu ? Quem dera fosse aquele ali grandão  de papel celofane vermelho! Ou aquele redondão ...quem sabe ali  uma bola de futebol G18 ?

  Hoje,  sou um médico   ainda voltado à brancura impecável das roupas e das atitudes! Mas ainda pondo meus sapatinhos nas janelas da vida   à espera de um sorriso, de um beijo da pessoa querida,  de um alô, de uma cartinha amiga, de um desejo sincero de Feliz Natal... esperas inúteis e frustantes. Pois estamos no mundo absoluto do Eu, Eu, Eu... e passarei mais um Natal abraçado às minhas lembranças abissais. Todo Natal  me  é triste pois traz as lembranças mais felizes que tínha ... e que  se perderam no tempo dos natais. Dos natais meninos! Acho que todos nós somos tristemente  assim ...pobres meninos envelhecidos!

Nelson Antonio,médico de almas.  



Véspera de Natal...
nelson antonio


Sou para os pobres o seu Papai Noel
E tenho sempre que acreditar
Que as coisas vão parar de piorar
E que virão milagres chovendo do Céu...


Debaixo das marquises os mendigos
Repartem os restos pútridos de comida
E as casas se superlotam de amigos
Trocando mil presentes , encharcando-se de bebida

Nos Postos de Saúde superlotados
Gemendo nos corredores espremida
Vejo uma multidão de desamparados

Como médico , me vem uma dor aguda
De sentir que a medicina em nada os ajuda
Quando a doença do povo é não ter comida!





Tempos de Natal


Nelson Antonio 

Natal, que teria isto a ver comigo
Que já não sou mais uma criança
Perdí pela vida até a esperança
De encontrar fora de mim um Amigo...

Natal, tempo comercial de gente rica
Comprando avidamente mil ilusões
Repletando de gorduras obesos corações
Enquanto o pobrezinho mais se mortifica

Esquecemos que Jesus saiu de Seu Céu
E resplandeceu em todo o Seu apogeu,
Acolhido naquela simples e morna palha

Para ver aos homens, empavonados de vaidade,
Que a grandeza de Deus se fez na humildade
E a grande justiceira social é a terra, nossa mortalha! ...



3 comentários:

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  2. " Como médico , me vem uma dor aguda
    De sentir que a medicina em nada os ajuda
    Quando a doença do povo é não ter comida!"

    Comida, instrução, esperança, valores que não tem mais valor...
    Difícil muitas vezes ver essa realidade bem de perto e por cargas d'água conseguir enxergar a realidade estática num país tão rico mas onde os problemas parecem novelos de lã de ponta bem escondida. Médico de almas. Precisamos de muitos e muitos outros por aí. (continua)

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  3. Obrigado amiga Julia. Suas palavras espelham o meu ideal de ter nascido para servir e não para ser servido, como um médico social que seguiu carreira no Ministério da Saúde e no Ministério da Doença , via SUS. O Brasil tem jeito desde que a gente o ajeite não com o jeitinho brasileiro mas com a dignidade de servir à Pátria antes de tudo. Meu abraço,
    nelsantonio

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