quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Bebê Marginal




Bebê Marginal
Dr Nelson Antonio Corrêa , médico obstetra.


Gritos alucinantes ecoam nas paredes descacadas e encardidas, despregadas da Maternidade Pública , entregue à sua própria e infeliz sorte de maternidade e ser pública. Todas têm nomes de Santos. Santo Isto. Santa Aquilo. Mas são para e do povo. Dos miseráveis. Dos esfomeados. Dos que não têm planos de vida ou de saúde. Dos entristecidos desde que nascidos. Dos micro-assalariados de patrões faustosos e faltosos em sua misericórdia. De serem justos. Menos ganaciosos. Menos exibidores. De seus caros importados e blindados. Que não se importam com quem vive dependurado nos metrôs da vida. Nos apertamentos de ônibus fedidos e infectos. Gente pobre e desamparada. Espremida como galinhas em seus engradados repletos. A maioria devedores ou iminentemente engradeados em prisões desumanas e fétidas como suas vidas marginalizadas e marginais. Presos pela couve que roubam dos verdureiros e sacolões . Pelo assalto por um pão. Por uma discussão besta. Por uma moeda. Por uma sandália havaiana. Por uma bola que não entrou na caçapa da sinuca. Por um desabafo de um murro porque seu Galo perdeu. Por serem pobres. Sem advogados que os defenda. Suas únicas nascentes de esperançaa são os evangélicos de coração. Que ainda não se corromperam. Não vivem das esmolas daqueles que os escutam, funâmbulos da Cruz. Que não usam apenas o terno escuro e a Bíblia negra como vestimenta da alma. Mas alimentam-se de preces, apenas. Que nutrem a todos que os seguem. Pastoreiam as almas.E não os seus bolsos. Em nome de Deus...
E aqui na Maternidade, no meio destes gritos, sou obstetra destas mães. Estou ao lado. Obstare, ficar ao lado, diz o latim. Atento. Ouvinte. No meio dos gritos da mãe desesperada de dor, a ausculta do feto. Cento e quarenta batimentos por minuto. Como um tropel de cavalinho ligeiro, seus corações estão ávidos por viver lá fora. Correr pela vida. Sair de dentro daquela barrigona, cheia de estrias. Imensa. Hipertensa. Como a mãe no seu todo. Pobres bebês .
Luto madrugada a dentro para que o feto nasça e bem. Tenho a cumplicidade da mãe Natureza há bilhões de anos fazendo partos. Que minhas mãos estudadas apenas aparam, guiam pelo canal da vida. Quase nada faço. Às vezes uma ligeira intervenção. Cirúrgica. Sofrimento obstétrico, quase sempre. Mas enfim lá vem uma nova vida para melhorar este mundo. Esta nova vida faz o maior berreiro quando nasce. Como a dizer:
- Nasci ! Cá estou eu ! Mais um morador deste mundo de Deus!!! Cabe eu aí ??? Tô indo !!!
Coloco o nenem sobre o tórax da mãe. Ele chupa o colostro espirrando das mamas fartas. Aquieta-se. Ficam os dois ali, binômio mãe-recém-nascido, quietinhos. E eu , sentado no banquinho giratório de aço inoxidável do bloco obstétrico, cirandando meu corpo, fico a matutar na madrugada, desamparado como quem sofre:
- Tadinho do nenem... Que vida o espera ! Que palácio de barro há de acolhê-lo! Salvas de tiros de automáticas o aguardam pelas vielas dos becos da vida. Pais bêbados, intoxicados, vivendo na mais completa miséria afetiva e moral. Viaturas policiais, como baratas tontas, a dispararem sirenes pelas madrugadas adentro. Invadindo seus mundos de criminalidades. Um submundo que nada lhe ensinará a não ser sobreviver . De drogas. Balas e chicletes em sinais parados. Talvez um malabarismo com fogos, malabarismo pela vida diária. Pequenos delitos inocentes e sempre crescentes. Até a marginalização como única meta de vida.
Pobre do meu bebêzinho. Marginal asssim que nasce... Um bebê marginal. Como isto dói!...
Por que somos omissos? Filhos do Diabo. Parceiros da Morte. Pactuantes da Injustiça Social.
Ao não adotarmos nossas crianças, deixamô-las à mercê da adoção traficante. Dos políticos. E dos crimes, e deles, o que é pior : roubamos-lhes o futuro! E tudo isto quase sempre em nome de um Deus. Que os homens criaram.
Parabéns Senhor, pela iniquidade que nos deixaste. A humanidade agradece. Meu bebê marginal... ainda não sabe rezar. Por ele, eu apenas deploro e choro por dentro misturando ao seu chorinho de nenenzinho recém-nato. Lágrimas iguais... vidas desiguais. Adormecemos, fadigados.Sonhamos o mesmo sonho : a DESPERANÇA!...

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