domingo, 12 de dezembro de 2010

Verly, meu menino...


Verly, meu menino...

nelson antonio

Verly, meu amigo. Que dizer a um velho homem que ele é sempre um menino, apenas um moleque pelas ruas da vida, a brincar de rodar pião, levar dolorosa bola de meia ( piormente molhada ) nas costas , e arremessá-la também, num tico-tico fuzilado, brincar de pique-pique-picolé, usar um tibolão devastador nas bolinhas de gude, jogar queimada no meio da rua , lançar sangue- do- diabo ( lembra-se da fórmula? fnolftaleína( usava-se o Lactopurga que hoje já não a tem na nova formulação ) + amônia + álcool + água ) na camisa branca dos amigos e escolares ( ficavam vermelhas como sangue e depois de segundos desaparecia aquela mancha enorme rubra...como mágica ), jogar demoradamente finca no chão molhado pela chuva, estraçalhar a casinha do outro ou dar aquele chutaço para o quintal do vizinho no bem-te altas ( uma espécie de beisebol interiorano brasileiro ) , rodar pneu velho ou guiar arco pelas ruas, quebrar as unhas do dedão do pé em peladas vespertinas de futebol nas ruas de pedra ( marcação das traves dos gols com latas), empurrar ou ser empurrado no carrinho de rolimã, reenturmar-se no vôlei com as meninas bonitinhas de fita vermelha no cabelo e saias curtinhas , roubar no tapão da lei - com as mãos molhadas de cuspe - as figurinhas que faltam no álbum ( lembra-se da do Pelé que valia milhões? ), dezenas de jogos de baralho - escopa, truco, canastra, pôquer, buraco, burro ( também não se esquecendo do Mico Preto ? ), etc - , purrinha pra pagar o café , guaraná ou qualquer coisa besta, andar de bonde de graça fintando o aflito cobrador, mil traquinagens e molecagens que o tempo jamais irá apagar em todos nós que envelhecemos por fora ?
É, véio, meu velho amigo. Esta criança interior que persiste em você se manifesta claramente em seu contar de estórias e histórias, este falar de si mesmo falando de todos nós e nos levando , quase sempre, a uma saudade de nós mesmos , de nossos momentos meninos, do quanto éramos felizes. Deus te deu este dom maravilhoso de nos trazer de volta à tua, à nossa meninice ... apenas com uma caneta, fada mágica.
Obrigado por tudo, meu irmãozinho mais velho, um pouquinho de nada a mais do que eu, ambos sexygenários . Mas tão novo na alma que chega a cheirar fraldas, a tinta fresca, a relva molhada pelo orvalho das manhãs... novinho em folha aos 68 anos. E o que é 68 quando na alma temos 15? Por tudo isto, parabéns , amigo ! A vida te fere mas és como rabo de lagartixa, sempre se regenerando integralmente em poucos dias. Que Deus - do qual ambos desacreditamos de mentirinha - te proteja e te faça sempre menino. Porque afinal das contas é o que você é: uma criança envelhecida...
Seu amigo e admirador,

nelsantonio

Nenhum comentário:

Postar um comentário