sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Amante da solidão




Amante da solidão
Nelson Antonio , início de 2009.


Moro num quarto de casal vazio que recebe meu corpo todas as noites... abandonado, sozinho, à mercê de meus pensamentos, onde a TV muitas vezes torna-se companheira única, um jogo de futebol enervante de um time alvinegro que poucas vezes empolga, quem sabe um livro ,um artigo médico , às vezes umas palavras-cruzadas, um jornal de anteontem, uma revista antiga prestante ao lixo...ou um pensamento de coisas que ficam dentro da gente para nos fazer companhia. Raramente, uma flor-poesia brotando do asfalto ...
Como uma grande sepultura que recebe meu corpo, deito-me numa cama de casal de 2 metros onde abraço uma pesada cruz da solidão como quem suporta uma grande árvore tombada sobre si mesmo.
Quando converso com minha companheira abandônica sobre vivermos assim separados e distantes ( ela se refugia num pequeno quarto com seu micro, seu telefone, sua TV, seus livros, seu Rivotril alienante) , ela diz-me que eu sei porque estou ali nesta situação, desfila meu passado como se eu fôra o pior dos amantes e ela a pureza imaculada das que nunca se entregaram por amor e eu rio-me de mim mesmo, talvez dela e do seu paradoxismo neurótico , por vê-la feliz e acomodada com a situação em que me colocou, vangloriando-se.Um castigo que ela me impinge e se apraz com ele. Um gostinho de vingança nos cantos dos lábios ...Bebe veneno querendo que eu morra com seu ressentimento.
Lembro-me de minha mãe, anos e anos a fio deitada sobre uma cama, depressiva, com a TV alta fazendo companhia em todas as horas, até ir morrer de abandono num CTI de 132 dias que lhe deu descanso para sua desdita.
Vendo a história de mamãe se repetir em minha vida , às vezes penso em correr daqui, como um pássaro a explorar o mundo e suas gentes, libertar minha alma aprisionada nesta masmorra de abandono e solidão. Mas tive um mal cardíaco recente, fiz angioplastia drástica, estou em recuperação há poucos dias, só restando-me a acomodação, relógio sem ponteiros, estagnação.Sem uma libertação para minha vida.
Gosto da minha companheira, mas sinto que não mais lhe falo no coração. A distância consentida por alguns momentos é boa para um relacionamento mas se perduradora acostuma as pessoas a sentirem que podem viver sózinhas sem a outra. É o que acontece com ela. E o que está acontecendo comigo. A lareira torna-se insuficiente para o inverno que vem gelar nossas almas, diariamente. Apesar de estarmos em plena primavera! E as rosas só me brotarem espinhos...
Vinícius de Morais dizia que a solidão é o fim de quem ama. Por isso teve 9 companheiras pois não gostava de se sentir só e abandonado quando sem elas. Adorava gente ao seu redor pois se sentia muito sózinho na vida. Pobre poeta... nunca soube entender-se em sua solidão.
Aprendí a gostar da solidão. Dos espaços vazios. Do falar comigo mesmo.Do conviver comigo. De entender que do lado de lá do espelho estou eu. De que aquele sorriso sem graça que recebo é o sorriso de minha solidão. Tornamo-nos amantes um do outro. A solidão me faz companhia e eu brinco com ela, numa doce loucura .É o que me resta no momento.Sou amante da solidão. E ela me adora. Não quer me abandonar. Uma triste diversão . Mas é o que resta no momento. Até que eu saia do espelho e siga pela vida! De mãos dadas com ela!!! Rumo ao infinito ...dos que ainda se amam.


" Daria tudo que sei em troca da metade do que ignoro." Descartes

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